quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DESENHOS antigos 1986


A vida afinal

O que importa, finalmente,
a não ser que a vida
- essa linha tênue e torta -
se descobre em cada esquina,
em cada portão espreita
um abalo ou um prazer,
uma alegria reticente e vaga
que raramente resiste 
o tempo de uma quimera.
Nos lanha, nos alisa,
nos embala, nos escarra,
nos afaga, nos fustiga,
mas é ela, a vida enfim,
nos enlaçando rija e fugaz,
em seu jogo claro-escuro
de brincar renascentista,
nos abrindo aquele abraço,
deixando seu gosto agridoce
quando afinal se desfaz.

[Lota Moncada]



domingo, 23 de outubro de 2011

"Inspiração" 25 x 35 cm



Quase nada

de você sei quase nada
pra onde vai ou porque veio
nem mesmo sei
qual é a parte da tua estrada
no meu caminho

será um atalho
ou um desvio
um rio raso
um passo em falso
um prato fundo
pra toda fome que há no mundo

noite alta que revele
o passeio pela pele
dia claro madrugada
de nós dois não sei mais nada

se tudo passa como se explica
o amor que fica nessa parada
amor que chega sem dar aviso
não é preciso saber mais nada.


[Alice Ruiz]



terça-feira, 18 de outubro de 2011

"Paisagem" 27 x 35 cm




Tudo é vago e muito vário,
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

[Paulo Leminski]


sábado, 15 de outubro de 2011

DESENHOS antigos - 1984


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

[Ferreira Gullar]


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

DESENHOS antigos - 1984



Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d'alma alheia o espinho que magoa 

[Helena Kolody]